Batata Sem Umbigo

29 de março de 2011

Teses sobre o Amor por Said Leoni

Conheci Said Leoni na minha adolescência em Ribeirão Preto e com ele travei grande e profunda amizade, fomos durante dois anos como unha e carne época em que me apresentou aquilo que ele chamava de poesia e que até então tinha como canône dessa arte. Quando vim morar em Campinas permanecemos com uma amizade forte mesmo com a distância, mas isso foi se perdendo ao passo que eu estudava cada vez mais, e tentava criar teorias racionais para tudo, comecei a ler poesias de outros, a ler sobre poesia, amor, trabalho, arte... a vida em geral, e talvez som isso, comecei a afastar-me cada vez mais desse amigo, de suas crenças e de seu estilo de vida. Said Leoni me escreveu a pouco tempo, em sua carta havia apenas as teses apresentadas abaixo, "Teses sobre o Amor", senti saudade deste amigo e reparei como fui um grande tolo ao me afastar dele por causa de coisas tão sem cabimento. Considero suas teses como a coisa mais linda que li nos últimos tempos, e gostaria de agradecer-lhe por ter lembrado de mim.

Teses sobre o Amor

1. o amor está em todo lugar, mas isso não é simplesmente explicado por uma condição dísica, metafísica ou então de maneira subconciente; o amor não é algo que possa ser explicado como uma ciência, crença ou religião, nem ao menos como algo explicável ou inexplicável, o amor é e está, ele é o "to be" das coisas do mundo, e não que essa explessão seja apenas dádiva da língua inglesa, o amor pode estar em outras línguas, dialetos, gestos inclassificáveis, um bom exemplo é o "querer estar" da palavra saudade em português brasileiro que é uma bela forma de representar o amor. O fato de o amor ser assim pode, por tanto, desconsiderar tudo aquilo que vai ser dito adiante, mas este não se faz necessariamente conflitante ou paradoxal o seu próprio intento.


2. o amor para ser amor tem que ser sincero, e é essa sinceridade intrínceca que faz do amor ser amor; justificando o amor para com pessoas e coisas, o amor à uma árvore, o amor a um animal de estimação, o amor por uma pedra ou um objeto de estima é tão amor como o amor por um outro ser vivo da mesma espécie, acontece que o mundo a nossa volta transforma o amor em coisas cambiáveis, mercadorias da sociedade, modismos e relações de posses irreais, assim o amor à uma árvore, a um animal de estimação, à uma pedra, a um objeto de estima ou a um outro ser vivo da mesma espécie se transformem em fetiches, pois não são sinceros.


3. o amor é difícil, pois amar exige estar fora de si mesmo, perder todo o egoísmo e a auta-estima, perceber que no mundo não existem só as vontades próprias e que o conflito entre duas vontades não se transformam sempre em ganhos qualitativos ou quantitativos, não são competição, são conjuntos indivisíveis que formam um todo, mas isso não pode cair na grande falácia de criar cópias de si paralelas, isso é uma saída condizente com a fuga que o mundo contemporâneo prporciona, e se isso fosse verdadeiro não seria sincero, não seria amor, e o amor por isso é das "coisas do mundo" a mais difícil.


4. o amor é reticências, pois se isso não fosse a proópria existência dos seres ditos humanos não permaneceria.


(Said Leoni, em algum dia de março de 2011)

3 comentários:

  1. "A sociedade concebe o amor, contra a natureza deste sentimento, como uma união estável e destinada a criar filhos. Identifica-o com o casamento. Qualquer transgressão desta regra é castigada com uma sanção cuja severidade varia de acordo com o tempo e espaço. (...) A estabilidade da família repousa no casamento, que se transforma em mera projeção da sociedade, sem outro objetivo a não ser a recriação desta mesma sociedade. Daí a natureza profundamente conservadora do casamento. Atacá-lo é dissolver as próprias bases da sociedade. Daí também que o amor seja, sem se propor a isso, um ato anti-social, pois cada vez que consegue ser realizado, viola o casamento e o transforma no que a sociedade não quer que ele seja: a revelação de duas solidões que criam por si mesmas um mundo, que quebra a mentira social, suprime o tempo e o trabalho e se declara auto-suficiente. Não é estranho, assim, que a sociedade persiga com o mesmo ódio o amor e a poesia, seu testemunho, e os lance à clandestinidade, à margem, ao mundo turvo e confuso do proibido, do ridículo e do anormal. E também não é de admirar que amor e poesia explodam sob formas discordantes e puras: um escândalo, um crime, um poema." Octavio Paz, "O labirinto da solidão"

    (minha monografia servindo para alguma coisa)
    Enfim, estava lendo essa passagem logo depois de passar por aqui. Achei que cabia a citação, ainda mais por falar de amor e poesia...

    Beijo, Batata!
    mags

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  2. ahhhhhhhhhhhh, não conhecia essa citação não... muito massa...
    valew Mags...

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