Batata Sem Umbigo

17 de maio de 2017

Ensaio sobre a incompletude – Said Leoni

andei um pouco em círculos pela cidade a fim de colocar o meu corpo em movimento já que a cabeça não consegue focar em nada, cá de volta estou na praça a ouvir o último cantar dos passarinhos antes que a noite tome forma no céu. pego a caneta e o caderno para anotar alguns versos que desenrolo livremente

desnudada a alma
o que segue é o corpo que continua a pulsar,
é que coisas da carne ficam,
mas o espírito límpido ganha altura
em vista de, em meio às nuvens,
poder autoanalisar-se

é que têm tantas coisas que me escapam
que chego a perder um pouco o rumo
...

na verdade, não sei muito bem o que tenho a dizer, é que tem uma coisa estranha se passando em minha cabeça, tirando-me o eixo, dissipando o esforço, agarrando a vontade… um não sei o quê do pensamento que faz a vista observar os caminhantes em suas pressas de fim do dia, os automóveis buzinarem-se nas esquinas e os comércios encerrarem seus expedientes. já doei cigarros de palha a mendigos e emprestei meu fogo aos maconheiros, assim a consciência devia fazer-se limpa, mas carrego algo no peito que amarra. pego então minha cachaça que vai na mala para entornar um gole, dissipo um pouco a consciência para ver se encontro um pouco de minha alma. observo um cachorro de madame a mijar por todo o canto e uma mulher catando latinhas ao redor dos bancos. em um prédio um tanto distante surge uma silhueta com a lâmpada recém-acesa e continuo sem desvendar essa sensação que me estranha, foco então o meu olhar às formas geométricas do parquinho de criança que tem dois cavalos de madeira, desses feitos para balançar, e nem essa imagem de infância traz algum resquício da lembrança daquilo que está a me perturbar.

(certa vez um amigo me mostrou um livro do kundera, o mais famoso dele, e li logo no início uma reflexão sobre o eterno retorno retirada de nietzsche. naquelas três ou cinco páginas ficou-me marcada a questão de que se tudo age em ciclos e se apenas alguns eventos são os que carregam o signo da não repetição, e por isso têm seu peso assegurado pelos livros de história, todo resto é muito leve, a vida, as alegrias e a danação. o autor perguntava-se, o que para ele era uma pergunta sem resposta até então, se podemos atribuir valor positivo ou negativo para o peso ou a leveza. como não li o livro e fiquei apenas nessa parte, não sei dizer se ele encontrou resposta para isso.)

pensando na leveza e no peso da vida, sou obrigado a abandonar o meu pouso na praça devido a uma chuva rasa que começara a cair. encontrei abrigo para a intempérie passageira em um boteco sujo no meio do caminho de minha casa. sentei ali recolhido e juntei umas moedas para tragar uma cerveja barata enquanto meus ouvidos atentavam para uma conversa na mesa ao lado. uma mulher desabafava para seu marido, amante, amigo, filho, desconhecido, não sei, a respeito do quão bagunçada lhe parecia sua vida. narrou toda uma rotina de afazeres e preocupações, cuidar do pai já muito idoso e do neto que ainda está nas fraldas, algumas dívidas acumuladas e outras coisas dessa ordem; como sentia a vida abarrotada de uma forma que nada ali entrava ou sequer saia. enquanto isso, entornava mais uma dose de bavaria no copo ainda pela metade, bebia um gole, com um esboço de deboche, “apenas um porre se encaixa”, e sorria com uma cara disforme. de repente, me vi tomado por essa encenação e, com isso, penetrou no mais profundo de meu eu o relato que acabara de me ser narrado, senti uma angústia e um lampejo de excitação na face da mulher ali defronte a mim sentada e, despropositadamente, esqueci daquilo para que até então eu não encontrara palavra. um velho de fronte sisuda e olhos opacos surgiu em meu campo de observação e atraiu de repente minha atenção, encaminhou-se para a jukebox que ladeava o balcão do bar e retirou de um dos bolsos da calça uma moeda, tilintou-a dentro da máquina e escolheu uma canção, enquanto a música não começava se postou embaixo do toldo do bar, acendeu um cigarro e ficou a observar a leve correnteza que a água da chuva formava na guia da calçada. reconheci de imediato o som mecânico que tomou o boteco e invadiu meus pensamentos, comecei a cantar internamente aquela música e, quando os versos

“a minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”

se pronunciaram, veio um nó na garganta que me deixou intranquilo, esqueci-me completamente daquela mulher com sua bagunça própria, enchi meu copo já vazio com a cerveja já quente e fui em direção daquele homem que fumava. a meia distância me pus a observa-lhe as feições enquanto a música o invadia. aquele rosto outrora sisudo se tingiu de uma expressão serena e pensativa, e seus olhos fizeram-se vagos com uma sombra de umidade, analisei com mais atenção aquela figura que estava me ladeando, sua testa com uma ruga cortante de lado a lado, uma barba cinzenta e rala por lhe preencher quase que a totalidade da parte inferior de sua face, seu cigarro queimando e produzindo uma cinza que não se quebrava e só crescia de proporção, suas roupas um tanto quanto sujas e gastas preenchiam um corpo esguio cheio de veias e artérias que saltavam de seus braços. reconheci aquela figura como um lampejo de meu futuro, era o eu de aqui uns tantos anos que estava ali a observar a chuva, sem tristeza ou alegria, se debatendo apenas com a confusão de seus próprios pensamentos indizíveis. tive vontade de abraçar-lhe, colocar sua cabeça entre minhas mãos, beijar-lhe os olhos e falar-lhe que não estava sozinho, que podia contar com o seu eu ainda moço, que podiam se apreenderem juntos, caminhar na chuva em busca de algum significado para as suas frustrações, que talvez seriam felizes se morassem juntos em um quarto de um hotel fuleiro no centro da cidade, compartilhando, o mais jovem, suas esperanças, e o mais velho, suas lembranças, e com isso se completarem, sem mais nenhuma necessidade exterior a eles mesmos, que eram um.

(li ou ouvi de alguém que não me lembro a respeito de uma necessidade primordial que o ser humano tem de gritar, gritar como um urro animal, um grito nunca praticado devido às convenções sociais que desagradam esse tipo de comportamento. o grito então fora relegado apenas a momentos determinados de muita dor ou de perigo, e a sociedade ocidental inteira estava fadada a viver com uma imensa vontade nunca colocada em prática de gritar sem motivo aparente ou necessário. certa feita, caminhando pelo centro de alguma cidade onde estava de passagem, me deparei com uma cena triste em uma viela paralela a uma grande avenida movimentada: uma garotinha de menos de oito anos segurava um gato morto apertado ao peito que soluçava. em choque, desviei dessa vista pois não consigo lidar com essas coisas da morte, mesmo quando são de animais indefesos. longe dali, tive uma imensa vontade de gritar.)

um estraçalhar de vidro intromete-se em meu devaneio, a mulher com a vida bagunçada desata a berrar com seu marido, amante, amigo, filho, desconhecido, ameaça, xinga e quebra coisas a sua volta. diante dessa confusão entorno minha cerveja e seu gosto quente diluído me rasga o estômago vazio de alimento, acho que hoje não comi nada, me esgueiro da maneira mais felina possível e pego minha mala e me ponho a ir embora daquele lugar que cheira a tragédia de programa televisivo de fim de tarde, não quero ser testemunha de nada. enquanto saio, procuro o velho sisudo e percebo que ele já se foi ou desapareceu, em vista disso acredito mesmo que ele é minha encarnação de alguns anos, ou um anjo travestido de mim mesmo no futuro que estava ali para me passar algum sinal necessário que não tive tempo de compreender. ponho-me a caminho de casa a passos fracos já que a chuva diminuíra consideravelmente sobrando apenas alguns poucos pingos gordos descompassados. passo pela avenida principal da cidade e já não há tanto movimento para além de carros apressados que rasgam sinais de trânsito e cantam pneus, não sei que horas são, pois meu celular está descarregado já há alguns dias. vou me tingindo de uma grande ideia de escrever um livro, um romance que narra as desventuras de um homem de meia-idade que tem a incrível capacidade de não completar nada daquilo que se propõe, ele sempre está a desviar de seus compromissos firmados e principalmente daqueles planos que ele mesmo se impõe. o livro deveria narrar o dia a dia desse ser desencontrado no período de um ano onde nada de interessante aconteceria, mostraria as agruras de ganhar seu sustento parco serviente apenas para pagar o aluguel de um cômodo nos fundos da casa de uma idosa doente que cria trinta e oito gatos antes abandonados, alimentar-se de coisas muito baratas servidas em pratos encardidos e, com a quantia que lhe sobra, comprar cartões de felicitações que coleciona desde a adolescência, mas que nunca encontraram pessoa intimamente conhecida e merecedora de seus envios. esse homem seria feliz a sua maneira, isso é importante e essa é a grande questão que me entrava já que não consigo encontrar na minha arte poética interior a forma exata de descrever sua felicidade. talvez não haja em mim felicidade suficientemente inscrita para que eu consiga escrever a felicidade dessa personagem que me habita.

(outro dia dei de frente em uma esquina com uma oferenda de macumba, duas velas iam acesas e uma galinha se encontrava morta jazida em um prato de louça escuro. suas penas eram pretas e tinham riscos brancos em suas extremidades, seu corpo ia jogado e o pescoço torcido findava em uma cabeça com olhos revirados, crista murcha e um filete de sangue e baba saindo do bico amarelado. tinha muito sangue sobre o prato, o que mostrava que a galinha tinha sofrido uma punhalada bem dada em seu peito, talvez nem tivesse um coração ali dentro da carcaça. voltei dois dias depois àquela esquina, as velas não mais haviam, mas o corpo da galinha ali ainda permanecia. uma enxurrada de moscas cobriam feridas causadas por algum felino ou cachorro vira-latas, que, com sorte, encontrou alimento naquele não-ser-mais oferecido. nenhuma mão humana profanou aquele ato. sete dias depois, o santuário foi lavado e apagado completamente daquela esquina.)

ao passar pelo cemitério que ladeia uma das ruas que dá de encontro ao meu caminho de volta, reparo que seus portões laterais estão levemente encostados, mas não trancados, e invadido por um sentimento de curiosidade me esgueiro pela entrada daquele local, como meu medo de alma penada é muito menor do que o das sombras que minha mente contém, caminho entre os túmulos com a única pretensão de não ser percebido pela alma humana e viva que ali deve ter adentrado. não demoro muito a encontrar aquilo que procuro, prostrado em um grande mausoléu dos idos do século dezenove está uma figura esquia trajada com vestes carcomidas segurando uma garrafa em sua mão esquerda e uma vela vermelha acesa na direita. sua pele é negra e seu rosto ostenta uma longa barba branca encrespada, não tem cabelos na cabeça, e não consigo observar com clareza seu rosto devido à iluminação proveniente apenas da vela em suas mãos e da pouca luz que adentra o cemitério advindas dos postes elétricos de fora. o silêncio de repouso é cortado pela voz rouca que sai da garganta da figura, que parece discursar para os mortos, palavras que, por mim, foram assim entendidas

“a noite toma contornos fluorescentes
e as almas cantam um lamento iridescente
hoje você pode ter acordado em um dia escuro
acreditando na falta de um naco
daquilo que se pensa ser si mesmo

mas te confesso absurdo animalzinho
que se eu deixar cair esse todo de vidro que vem em minhas mãos
contra a pedra azul que se chama terra aqui estendida
ela vai desfazer-se em mil estrelas
tantas quanto as partes que em ti e em mim habitam

e se com cada caco incrustássemos na carne
com o único prazer de nos fazermos inteiros
somente uma dor quase montanha
contaminaria nosso corpo, espaço e cerebelo
porque a garrafa de vidro novamente não formaria

daqueles seres que mais se fizeram passageiros
e nunca se sentiram ao todo inteiros
belum selezai talvez seja o primeiro
já que ele vive forasteiro
nos recantos dos pássaros e de outros seres pequenos

não é poeta apesar de rimar sons
mas de poesia só entende aquele que está amando por completo
ou aquele que se tortura diariamente sem sabê-lo
belum selezai não ama e nem tortura
belum selezai só anda a catar pedaços

e se uma nuvem se junta a outra para fazer chuva
e se uma folha da árvore cai para outra poder brotar
e se um grão de areia vira ilha depois de um centilhão de anos
e se duas células que se unem formam uma criança
para belum selezai as coisas não se dão assim

a chuva, a árvore, a ilha e a criança
são todas imagens da cabeça que se quer inteiramente
a nuvem, a folha, o grão e a célula
servem então apenas para sua semelhança infinitesimal
seríamos então partes preenchidas de todos?

o que completa a vida é tão somente a morte
o que completa o círculo é o seu ponto de início
estou vivo e sei disso e ainda tenho uns outros pontos a cerzir
assim tem dito o profeta, amigo e espírito
cujo nome é belum selezai e não outro”

findadas essas palavras, com um sopro audível, a figura apagou a vela, e depois de alguns segundos ouvi a garrafa se quebrar a alguns metros de distância. saí de minha tocaia tentando reconstituir o caminho de volta para a entrada do cemitério por onde tinha passado, enquanto repetia para mim mesmo alguns dos trechos do que tinha ouvido. belum selezai… ganhei a rua e continuei meu caminho. já em casa, adentrei. e com uma exaustão tremenda joguei-me no colchão e adormeci prontamente.


(um sonho. estou em um quarto fantasmagoricamente iluminado com luz branca, distingo apenas uma diminuta janela, tão pequena que não seria possível toda essa luz advir apenas dali, vejo móveis que aparentam ser muito pesados, uma cama, uma poltrona, uma estante horizontal, e objetos espalhados cujas formas não trazem nenhum tipo de singularidade. no quarto, além de mim, reconheço um pássaro, um pequeno pardal de penugem preta com uma barriga branca. muito pequeno e frágil, parece ser ainda um filhote. aproximo-me dele a fim de espantá-lo para que ganhe a liberdade através da janela. ele não entende meu ímpeto e começa a voar em círculos, debatendo-se muitas vezes nas paredes e móveis, esganiçando um lamento triste. fico apavorado em vê-lo nessa contenda e busco a todo custo distraí-lo para o objetivo que tenho em mente, sua libertação. um tempo indefinível se dilata nessa dança entre pássaro e homem. em um momento, cansado, o pequeno pardal pousa ao lado da cama, e o homem, que sou eu, tenta pegá-lo carinhosamente pelas mãos, fazendo um movimento delicado com os dedos em busca de entrelaçá-los sob o minúsculo corpo de ave que pulsa com o furor do cansaço. devido a sua falta de destreza, a ave solta um grito e volta a voar em círculos pelo quarto, se debatendo novamente hora ou outra nos objetos que compõem o cenário. mais uma vez o pássaro desiste de suas investidas e pousa dessa vez no pé da estante. mais uma vez o homem, agora todo banhado de suor, tenta com maior cuidado capturar o pássaro com as mãos, ele balbucia palavras de conforto e assovia breves melodias para tentar acalmar o coração da ave, que quase lhe rompe o peito. mais uma vez uma tentativa frustrada. nova dança, inquietude alargada. o pássaro, puro a respeito das coisas do mundo, enfia-se embaixo da poltrona e lá parece parar de se debater. o homem, atemorizado com a possibilidade de a ave ter encontrado seu fim, grita e se desespera, tenta empurrar a poltrona ou levantá-la, mas esta é muitíssimo pesada, e nenhum de seus esforços consegue movê-la ao menos um centímetro. pega então um objeto qualquer com o qual ultrapassa rente ao chão a poltrona por baixo a fim de retirar dali o pássaro sem lhe causar nenhuma dor. a ave sai toda empoeirada e logo que vê novamente a luz, retorna seu giro pelo quarto, capenga e sem direção, com uma maior braveza que resulta em pancadas mais fortes nas paredes. o pássaro cai novamente em repouso sobre a cama. o homem não tem certeza se deve novamente tentar pegá-lo, teme pela vida do animal que lhe está defronte, tem as roupas, o rosto e os cabelos empapados de suor, o coração chega a subir-lhe pela garganta e a mente fica exausta. o homem senta-se ao lado do pássaro que pouco reage, soltando apenas alguns pios de desabafo pardálico. homem e ave se encontram. abruptamente o pássaro volta a voar. acordo.)