Batata Sem Umbigo

22 de outubro de 2017

Últimos trabalhos...

Salve leitorxs desse blog encardido, sei que ando publicando pouco por aqui, mas a correria nunca é fácil e a produção vêm de encontro às vicissitudes cotidianas. Mas isso não quer dizer que não tenho produzido, ao contrário, venho desenhando cada vez mais, porém, em ritmo mais desacelerado, o que justifica menos postagens... Mas quando elas acontecem, que venham em grande quantidade.

Segue abaixo, as últimas ilustrações que tenho criado... espero que gostem. Aproveito para deixar o recado, para aquelxs que querem acompanhar minhas publicações no instagram, eis minha página: https://www.instagram.com/batatasemumbigo/

Há braços!

1. Esboço de lobo:

2. Ilustração para cartaz da apresentação: "Uivos para Allen Ginsberg":

3. Charge "eu ando tão sozinho" colorizada no Gimp:


4. Meditação 03, redesenhado e colorizado no Illustrator:



5. Auto-retrato de 23 de julho de 2017:


6. Espada de São Jorge quebrada (aquarela):


7. "Minguante" (aquarela):



8. "Amigo Imaginário nº 01" (aquarela):



9. "Ancestral":




10. "registro imaginário em um metrô japonês" (aquarela):




11. "mulher" (aquarela):




12. "esboço para um realismo-imaginário ou apenas uma mulher sentada que me apareceu na mente":






13 de agosto de 2017

Três desenhos e um recado.

Olá a todxs que acompanham esse blog.

Há algum tempo não publico por aqui, logo, mando três desenhos recentes e um recado...




O recado: fiz um perfil no instagram para postar meus trampos, isso não quer dizer que eu vá abandonar este blog, jamais! A ideia é mesmo aos poucos tentar me desvencilhar do facebook... assim sendo, não pretendo mais postar em minha página nessa rede social. Quem quiser me seguir lá no instagram, acessem: https://www.instagram.com/batatasemumbigo/


17 de maio de 2017

Ensaio sobre a incompletude – Said Leoni

andei um pouco em círculos pela cidade a fim de colocar o meu corpo em movimento já que a cabeça não consegue focar em nada, cá de volta estou na praça a ouvir o último cantar dos passarinhos antes que a noite tome forma no céu. pego a caneta e o caderno para anotar alguns versos que desenrolo livremente

desnudada a alma
o que segue é o corpo que continua a pulsar,
é que coisas da carne ficam,
mas o espírito límpido ganha altura
em vista de, em meio às nuvens,
poder autoanalisar-se

é que têm tantas coisas que me escapam
que chego a perder um pouco o rumo
...

na verdade, não sei muito bem o que tenho a dizer, é que tem uma coisa estranha se passando em minha cabeça, tirando-me o eixo, dissipando o esforço, agarrando a vontade… um não sei o quê do pensamento que faz a vista observar os caminhantes em suas pressas de fim do dia, os automóveis buzinarem-se nas esquinas e os comércios encerrarem seus expedientes. já doei cigarros de palha a mendigos e emprestei meu fogo aos maconheiros, assim a consciência devia fazer-se limpa, mas carrego algo no peito que amarra. pego então minha cachaça que vai na mala para entornar um gole, dissipo um pouco a consciência para ver se encontro um pouco de minha alma. observo um cachorro de madame a mijar por todo o canto e uma mulher catando latinhas ao redor dos bancos. em um prédio um tanto distante surge uma silhueta com a lâmpada recém-acesa e continuo sem desvendar essa sensação que me estranha, foco então o meu olhar às formas geométricas do parquinho de criança que tem dois cavalos de madeira, desses feitos para balançar, e nem essa imagem de infância traz algum resquício da lembrança daquilo que está a me perturbar.

(certa vez um amigo me mostrou um livro do kundera, o mais famoso dele, e li logo no início uma reflexão sobre o eterno retorno retirada de nietzsche. naquelas três ou cinco páginas ficou-me marcada a questão de que se tudo age em ciclos e se apenas alguns eventos são os que carregam o signo da não repetição, e por isso têm seu peso assegurado pelos livros de história, todo resto é muito leve, a vida, as alegrias e a danação. o autor perguntava-se, o que para ele era uma pergunta sem resposta até então, se podemos atribuir valor positivo ou negativo para o peso ou a leveza. como não li o livro e fiquei apenas nessa parte, não sei dizer se ele encontrou resposta para isso.)

pensando na leveza e no peso da vida, sou obrigado a abandonar o meu pouso na praça devido a uma chuva rasa que começara a cair. encontrei abrigo para a intempérie passageira em um boteco sujo no meio do caminho de minha casa. sentei ali recolhido e juntei umas moedas para tragar uma cerveja barata enquanto meus ouvidos atentavam para uma conversa na mesa ao lado. uma mulher desabafava para seu marido, amante, amigo, filho, desconhecido, não sei, a respeito do quão bagunçada lhe parecia sua vida. narrou toda uma rotina de afazeres e preocupações, cuidar do pai já muito idoso e do neto que ainda está nas fraldas, algumas dívidas acumuladas e outras coisas dessa ordem; como sentia a vida abarrotada de uma forma que nada ali entrava ou sequer saia. enquanto isso, entornava mais uma dose de bavaria no copo ainda pela metade, bebia um gole, com um esboço de deboche, “apenas um porre se encaixa”, e sorria com uma cara disforme. de repente, me vi tomado por essa encenação e, com isso, penetrou no mais profundo de meu eu o relato que acabara de me ser narrado, senti uma angústia e um lampejo de excitação na face da mulher ali defronte a mim sentada e, despropositadamente, esqueci daquilo para que até então eu não encontrara palavra. um velho de fronte sisuda e olhos opacos surgiu em meu campo de observação e atraiu de repente minha atenção, encaminhou-se para a jukebox que ladeava o balcão do bar e retirou de um dos bolsos da calça uma moeda, tilintou-a dentro da máquina e escolheu uma canção, enquanto a música não começava se postou embaixo do toldo do bar, acendeu um cigarro e ficou a observar a leve correnteza que a água da chuva formava na guia da calçada. reconheci de imediato o som mecânico que tomou o boteco e invadiu meus pensamentos, comecei a cantar internamente aquela música e, quando os versos

“a minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”

se pronunciaram, veio um nó na garganta que me deixou intranquilo, esqueci-me completamente daquela mulher com sua bagunça própria, enchi meu copo já vazio com a cerveja já quente e fui em direção daquele homem que fumava. a meia distância me pus a observa-lhe as feições enquanto a música o invadia. aquele rosto outrora sisudo se tingiu de uma expressão serena e pensativa, e seus olhos fizeram-se vagos com uma sombra de umidade, analisei com mais atenção aquela figura que estava me ladeando, sua testa com uma ruga cortante de lado a lado, uma barba cinzenta e rala por lhe preencher quase que a totalidade da parte inferior de sua face, seu cigarro queimando e produzindo uma cinza que não se quebrava e só crescia de proporção, suas roupas um tanto quanto sujas e gastas preenchiam um corpo esguio cheio de veias e artérias que saltavam de seus braços. reconheci aquela figura como um lampejo de meu futuro, era o eu de aqui uns tantos anos que estava ali a observar a chuva, sem tristeza ou alegria, se debatendo apenas com a confusão de seus próprios pensamentos indizíveis. tive vontade de abraçar-lhe, colocar sua cabeça entre minhas mãos, beijar-lhe os olhos e falar-lhe que não estava sozinho, que podia contar com o seu eu ainda moço, que podiam se apreenderem juntos, caminhar na chuva em busca de algum significado para as suas frustrações, que talvez seriam felizes se morassem juntos em um quarto de um hotel fuleiro no centro da cidade, compartilhando, o mais jovem, suas esperanças, e o mais velho, suas lembranças, e com isso se completarem, sem mais nenhuma necessidade exterior a eles mesmos, que eram um.

(li ou ouvi de alguém que não me lembro a respeito de uma necessidade primordial que o ser humano tem de gritar, gritar como um urro animal, um grito nunca praticado devido às convenções sociais que desagradam esse tipo de comportamento. o grito então fora relegado apenas a momentos determinados de muita dor ou de perigo, e a sociedade ocidental inteira estava fadada a viver com uma imensa vontade nunca colocada em prática de gritar sem motivo aparente ou necessário. certa feita, caminhando pelo centro de alguma cidade onde estava de passagem, me deparei com uma cena triste em uma viela paralela a uma grande avenida movimentada: uma garotinha de menos de oito anos segurava um gato morto apertado ao peito que soluçava. em choque, desviei dessa vista pois não consigo lidar com essas coisas da morte, mesmo quando são de animais indefesos. longe dali, tive uma imensa vontade de gritar.)

um estraçalhar de vidro intromete-se em meu devaneio, a mulher com a vida bagunçada desata a berrar com seu marido, amante, amigo, filho, desconhecido, ameaça, xinga e quebra coisas a sua volta. diante dessa confusão entorno minha cerveja e seu gosto quente diluído me rasga o estômago vazio de alimento, acho que hoje não comi nada, me esgueiro da maneira mais felina possível e pego minha mala e me ponho a ir embora daquele lugar que cheira a tragédia de programa televisivo de fim de tarde, não quero ser testemunha de nada. enquanto saio, procuro o velho sisudo e percebo que ele já se foi ou desapareceu, em vista disso acredito mesmo que ele é minha encarnação de alguns anos, ou um anjo travestido de mim mesmo no futuro que estava ali para me passar algum sinal necessário que não tive tempo de compreender. ponho-me a caminho de casa a passos fracos já que a chuva diminuíra consideravelmente sobrando apenas alguns poucos pingos gordos descompassados. passo pela avenida principal da cidade e já não há tanto movimento para além de carros apressados que rasgam sinais de trânsito e cantam pneus, não sei que horas são, pois meu celular está descarregado já há alguns dias. vou me tingindo de uma grande ideia de escrever um livro, um romance que narra as desventuras de um homem de meia-idade que tem a incrível capacidade de não completar nada daquilo que se propõe, ele sempre está a desviar de seus compromissos firmados e principalmente daqueles planos que ele mesmo se impõe. o livro deveria narrar o dia a dia desse ser desencontrado no período de um ano onde nada de interessante aconteceria, mostraria as agruras de ganhar seu sustento parco serviente apenas para pagar o aluguel de um cômodo nos fundos da casa de uma idosa doente que cria trinta e oito gatos antes abandonados, alimentar-se de coisas muito baratas servidas em pratos encardidos e, com a quantia que lhe sobra, comprar cartões de felicitações que coleciona desde a adolescência, mas que nunca encontraram pessoa intimamente conhecida e merecedora de seus envios. esse homem seria feliz a sua maneira, isso é importante e essa é a grande questão que me entrava já que não consigo encontrar na minha arte poética interior a forma exata de descrever sua felicidade. talvez não haja em mim felicidade suficientemente inscrita para que eu consiga escrever a felicidade dessa personagem que me habita.

(outro dia dei de frente em uma esquina com uma oferenda de macumba, duas velas iam acesas e uma galinha se encontrava morta jazida em um prato de louça escuro. suas penas eram pretas e tinham riscos brancos em suas extremidades, seu corpo ia jogado e o pescoço torcido findava em uma cabeça com olhos revirados, crista murcha e um filete de sangue e baba saindo do bico amarelado. tinha muito sangue sobre o prato, o que mostrava que a galinha tinha sofrido uma punhalada bem dada em seu peito, talvez nem tivesse um coração ali dentro da carcaça. voltei dois dias depois àquela esquina, as velas não mais haviam, mas o corpo da galinha ali ainda permanecia. uma enxurrada de moscas cobriam feridas causadas por algum felino ou cachorro vira-latas, que, com sorte, encontrou alimento naquele não-ser-mais oferecido. nenhuma mão humana profanou aquele ato. sete dias depois, o santuário foi lavado e apagado completamente daquela esquina.)

ao passar pelo cemitério que ladeia uma das ruas que dá de encontro ao meu caminho de volta, reparo que seus portões laterais estão levemente encostados, mas não trancados, e invadido por um sentimento de curiosidade me esgueiro pela entrada daquele local, como meu medo de alma penada é muito menor do que o das sombras que minha mente contém, caminho entre os túmulos com a única pretensão de não ser percebido pela alma humana e viva que ali deve ter adentrado. não demoro muito a encontrar aquilo que procuro, prostrado em um grande mausoléu dos idos do século dezenove está uma figura esquia trajada com vestes carcomidas segurando uma garrafa em sua mão esquerda e uma vela vermelha acesa na direita. sua pele é negra e seu rosto ostenta uma longa barba branca encrespada, não tem cabelos na cabeça, e não consigo observar com clareza seu rosto devido à iluminação proveniente apenas da vela em suas mãos e da pouca luz que adentra o cemitério advindas dos postes elétricos de fora. o silêncio de repouso é cortado pela voz rouca que sai da garganta da figura, que parece discursar para os mortos, palavras que, por mim, foram assim entendidas

“a noite toma contornos fluorescentes
e as almas cantam um lamento iridescente
hoje você pode ter acordado em um dia escuro
acreditando na falta de um naco
daquilo que se pensa ser si mesmo

mas te confesso absurdo animalzinho
que se eu deixar cair esse todo de vidro que vem em minhas mãos
contra a pedra azul que se chama terra aqui estendida
ela vai desfazer-se em mil estrelas
tantas quanto as partes que em ti e em mim habitam

e se com cada caco incrustássemos na carne
com o único prazer de nos fazermos inteiros
somente uma dor quase montanha
contaminaria nosso corpo, espaço e cerebelo
porque a garrafa de vidro novamente não formaria

daqueles seres que mais se fizeram passageiros
e nunca se sentiram ao todo inteiros
belum selezai talvez seja o primeiro
já que ele vive forasteiro
nos recantos dos pássaros e de outros seres pequenos

não é poeta apesar de rimar sons
mas de poesia só entende aquele que está amando por completo
ou aquele que se tortura diariamente sem sabê-lo
belum selezai não ama e nem tortura
belum selezai só anda a catar pedaços

e se uma nuvem se junta a outra para fazer chuva
e se uma folha da árvore cai para outra poder brotar
e se um grão de areia vira ilha depois de um centilhão de anos
e se duas células que se unem formam uma criança
para belum selezai as coisas não se dão assim

a chuva, a árvore, a ilha e a criança
são todas imagens da cabeça que se quer inteiramente
a nuvem, a folha, o grão e a célula
servem então apenas para sua semelhança infinitesimal
seríamos então partes preenchidas de todos?

o que completa a vida é tão somente a morte
o que completa o círculo é o seu ponto de início
estou vivo e sei disso e ainda tenho uns outros pontos a cerzir
assim tem dito o profeta, amigo e espírito
cujo nome é belum selezai e não outro”

findadas essas palavras, com um sopro audível, a figura apagou a vela, e depois de alguns segundos ouvi a garrafa se quebrar a alguns metros de distância. saí de minha tocaia tentando reconstituir o caminho de volta para a entrada do cemitério por onde tinha passado, enquanto repetia para mim mesmo alguns dos trechos do que tinha ouvido. belum selezai… ganhei a rua e continuei meu caminho. já em casa, adentrei. e com uma exaustão tremenda joguei-me no colchão e adormeci prontamente.


(um sonho. estou em um quarto fantasmagoricamente iluminado com luz branca, distingo apenas uma diminuta janela, tão pequena que não seria possível toda essa luz advir apenas dali, vejo móveis que aparentam ser muito pesados, uma cama, uma poltrona, uma estante horizontal, e objetos espalhados cujas formas não trazem nenhum tipo de singularidade. no quarto, além de mim, reconheço um pássaro, um pequeno pardal de penugem preta com uma barriga branca. muito pequeno e frágil, parece ser ainda um filhote. aproximo-me dele a fim de espantá-lo para que ganhe a liberdade através da janela. ele não entende meu ímpeto e começa a voar em círculos, debatendo-se muitas vezes nas paredes e móveis, esganiçando um lamento triste. fico apavorado em vê-lo nessa contenda e busco a todo custo distraí-lo para o objetivo que tenho em mente, sua libertação. um tempo indefinível se dilata nessa dança entre pássaro e homem. em um momento, cansado, o pequeno pardal pousa ao lado da cama, e o homem, que sou eu, tenta pegá-lo carinhosamente pelas mãos, fazendo um movimento delicado com os dedos em busca de entrelaçá-los sob o minúsculo corpo de ave que pulsa com o furor do cansaço. devido a sua falta de destreza, a ave solta um grito e volta a voar em círculos pelo quarto, se debatendo novamente hora ou outra nos objetos que compõem o cenário. mais uma vez o pássaro desiste de suas investidas e pousa dessa vez no pé da estante. mais uma vez o homem, agora todo banhado de suor, tenta com maior cuidado capturar o pássaro com as mãos, ele balbucia palavras de conforto e assovia breves melodias para tentar acalmar o coração da ave, que quase lhe rompe o peito. mais uma vez uma tentativa frustrada. nova dança, inquietude alargada. o pássaro, puro a respeito das coisas do mundo, enfia-se embaixo da poltrona e lá parece parar de se debater. o homem, atemorizado com a possibilidade de a ave ter encontrado seu fim, grita e se desespera, tenta empurrar a poltrona ou levantá-la, mas esta é muitíssimo pesada, e nenhum de seus esforços consegue movê-la ao menos um centímetro. pega então um objeto qualquer com o qual ultrapassa rente ao chão a poltrona por baixo a fim de retirar dali o pássaro sem lhe causar nenhuma dor. a ave sai toda empoeirada e logo que vê novamente a luz, retorna seu giro pelo quarto, capenga e sem direção, com uma maior braveza que resulta em pancadas mais fortes nas paredes. o pássaro cai novamente em repouso sobre a cama. o homem não tem certeza se deve novamente tentar pegá-lo, teme pela vida do animal que lhe está defronte, tem as roupas, o rosto e os cabelos empapados de suor, o coração chega a subir-lhe pela garganta e a mente fica exausta. o homem senta-se ao lado do pássaro que pouco reage, soltando apenas alguns pios de desabafo pardálico. homem e ave se encontram. abruptamente o pássaro volta a voar. acordo.)

19 de março de 2017

(um conto sem título)

Rolou para o lado e saiu do casulo. Seu corpo todo suado e um medo crescente trazido pela luz do mundo ali fora. Não conseguia distinguir se acordara de um sonho bom ou se adormecido adentrara em um pesadelo. O corpo estranho pulsava, sentia medo e não conseguia desgarrar das cobertas. Antes se encontrava em terreno seguro e confortável, a vida era mansa e os dias transcorriam com leveza, tudo estava em seu lugar e em ordem. Mas agora, tudo parecia ser tão opaco, quase que irreal. Apercebeu-se que há muito tempo não se movia e foi esticando os membros um a um, uma centelha de alívio invadiu sua cabeça como se no meio da testa, entre seus olhos, como se sentisse seu corpo por inteiro pela primeira vez. Na medida em que o corpo esticava e as articulações estalavam, uma crescente tensão irradiou de seu peito agora arfante, uma dor que começou fraca, se intrometeu na mente e aumentou; câimbra motora avassaladora, contração e constrição – cólica do eu. Teve medo de morrer enquanto lembrava o calor afável do enrolar da cama. Era feliz, sabia disso e sentia-se completo. Agora o mundo todo se fazia de formas diferentes de antes, linhas curvas e outras tantas retas e tudo colorido. Vozes. Sons mecânicos e aves. Que mundo era esse onde mal conseguia ouvir sua própria voz? – onde o mundo era só seu. “EU” (?) E se lágrimas rolassem e pudesse voltar atrás, desfazer o tempo, desfazer seus movimentos? – Mas lágrimas não lhe saiam mais, na realidade seus olhos estavam bem abertos e as pupilas dilatavam conforme se acostumava à luz. Sentia dor, mas seu coração freneticamente batendo parecia jorrar seu sangue para fora do corpo, estava se arrebentando por dentro mas no fundo sentia um prazer cômico, como que advindo de um lado de sua personalidade que dizia que a dor ia parar quando ele se acostumasse; pois a dor era parte de sua vida agora, e isso não era ruim. Aos poucos, seu corpo se fez leve, e todo o peso que concentrava em si migrou para um ponto indeterminado das costas, era o seu peso do mundo, o peso que iria carregar de agora em diante. O peso era o mundo e o mundo também era ele. Parado, concentrou sua respiração controlando o ar que entrava e saia do peito, não iria morrer, entendeu isso e descartada essa possibilidade, tentou organizar as ideias que desvelavam em sua cabeça. Tudo parecia girar ao encontro daquilo que tinha sido e naquilo que se transformara. Inexorável. Essa palavra surgiu-lhe na cabeça corrompida de uma sensação de vazio. Não se muda aquilo que já foi, mas muda-se mesmo assim, e essa ideia da permanente mutação que parecia ser aquilo que estava vivendo naquele instante encheu-lhe de alegria, uma alegria levemente adocicada – quanto de espera cabe na palavra esperança? – notou que não estava pensando coisa com coisa, adiava assim seu próximo passo, pois ainda suas mãos agarravam fortemente os trapos que antes o envolvia, quanto tempo ainda permaneceria nessa mesma posição? A mente parecia toda repleta de coisas novas das quais não compreendia, e o esforço de tentar entendê-las lhe causava mais confusão, sentiu uma iminência de choro, e dessa vez chorou por inteiro, o corpo todo se estremeceu e se entregou sem nenhuma piedade a todas essas coisas que não conseguia organizar no pensamento. O corpo tomado de lágrimas escorria e pingava, e continuava, mais e mais, até subitamente parar. Com grande esforço soltou uma das mãos cerradas na coberta, e alisou seu rosto molhado e salgado. Gostou do conforto do carinho autoimposto, era como que redescobrir o prazer do toque, o tato. Enrijecia ao passar a mão liberta pelo pescoço e pelo peito, as dobras dos sovacos sentindo leves cócegas. Entregou-se a uma risada pura, até que mais uma vez algumas lágrimas rolaram, só que causadas pelo espanto da gargalhada. Ouviu sua voz. Voz que achara que perdera, e que louco em seu medo inicial, pensou não possuir mais. Podia falar, podia então gritar. E como se preencheu de prazer ao dar seu primeiro grito, como um uivo que traz aos ouvidos algo que se encontra entre o terror e o desejo. Tomado de uma coragem então descoberta, firmou as pernas em um enlace dos panos para firmá-las, e entre pequenos gritinhos e espasmos de humor meio débil – como as risadinhas de bebês quando recebem cócegas vagarosas na barriga – esticou os dois braços em busca do vazio e balançou o corpo. Fechou os olhos para apenas sentir o movimento. Mais rápido, e mais rápido ainda... não tinha mais como se segurar por causa da velocidade que atingira. Soltou-se, esticou as asas que lhe era o peso do mundo, bateu-as sem saber como. E antes mesmo de encontrar o solo, voou inteiro.

(Said Leoni - 19-mar-2017)

Portifólio Batata Sem Umbigo 2016-2017


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23 de novembro de 2016

Resenha pseudo-crítica do “rascunhos para mais um ensaio sobre a loucura” de João da Silva

“Meu maior temor ao fazer esses quadrinhos – que são poesia, literatura, pontos de vista, bastante ignorância – é alguém tomar o que está aqui como uma verdade absoluta, um dogma, um caminho a se seguir sem autonomia.” - em alguma página do “rascunho 07”

Talvez autonomia seja uma ótima palavra para definir o caminho percorrido nos últimos anos por João da Silva na construção de seus “rascunhos para mais um ensaio sobre a loucura”. Por ser ele um grande amigo meu, de companherismo na vida e no trabalho cartunístico desde a constituição da finada Revista Miséria, pude acompanhá-lo em parte dessa jornada.

A ideia sempre foi, salvo engano, construir um panorama não formal, tendo em vista os moldes meramente acadêmicos, daquilo que se constitui como loucura a partir da leitura da antipsiquiatria. Tendo em vista o objetivo, a pesquisa e o trabalho de investigação a cerca desse vasto tema se deu como se deve dar em uma pesquisa como estas, na vida. Assim sendo, não se bastaram as leituras dos tidos intelectuais e especialistas no assunto, mas também, músicas, filmes, hqs, literatura e poesia se juntariam a essa jornada, não podendo nunca ser colocado de lado, as muitas conversas acaloradas nos bares, regadas sempre pelas cervejas mais baratas dos respectivos recintos.

Fato é que parte desse instigante trabalho ganhou forma há poucos meses com a caprichada publicação, no melhor estilo “rooteira”, desse primeiro volume dos “rascunhos...”. E que imenso prazer foi recebê-lo das mãos do autor-amigo. A leitura feita no melhor estilo “devora-te a ti mesmo” foi recheada pela sensação: “puta-que-o-pariu, depois disso minha carreira como cartunista não tem mais o porque de continuar, o Jão fez tudo! Vou me retirar no meio do mato e viver uma vida asceta em busca da paz interior” - invejinha boa a parte, a leitura foi deliciosa e podemos talvez nos deparar com o trabalho mais bem acabado, do ponto de vista da arte que este autor nos põe em mãos.

Cada traço está bem calculado, a sujeira nos quadros, característica de já alguns anos dos trabalhos de João da Silva está impecável. Pude presenciar parte do trabalho de feitura de algumas páginas desse livro-zine e ver que de muito suor e cachaça se faz uma boa página de hq.

Quanto aos 09 rascunhos que compõem essa obra, destaco o rascunho 04, “umbigolândia”, pela destreza do ser sintético e cortante sem utilizar ao menos um balão de fala, e o rascunho 06, “uma primeira vez”, roteiro há muito tempo colocado em cima da mesa, na época de Miséria e que finalmente ganhou forma, a extrapolação de uma sociedade um pouco diferente, mas tão igual àquela em que vivemos.

Como dito pelo próprio autor, nas palavras que repeti no ínicio dessa resenha, esses “rascunhos...” não devem ser lidos de maneira dogmática, não há verdade contida aqui e sim um trabalho de pesquisa e de opinião que visa refletir com seriedade, e porque não, poeticidade, um tema que pouco vemos aparecer no dia-a-dia, a loucura nossa de cada dia e o que limita essa loucura da loucura que deve ser encarcerada. Por que encarceramos nossos loucos?

Ficamos agora no aguardo de mais rascunhos de João da Silva, que eles venham na velocidade que se deve ser… que a ansiedade aguente essa espera e que possamos continuar cada um sendo loucos a sua maneira.

Como dizia o poeta: “Todo bairro tem um louco que o bairro trata bem, só falta mais um pouco para eu ser tratado também”.

Para conhecer os quadrinhos de João da Silva, clique AQUI!

(Eu e João da Silva e os "rascunhos..." - crédito da foto: Natália Schimiedecke)

10 de novembro de 2016

Descarrego de desenhos do caderninho... (parte 02)

Salve moçada, finalmente, acabei de completar meu último caderninho com algumas ilustrações, desenhos e rabiscos, para quem não viu ainda a primeira parte, ela segue AQUI.

Espero que gostem dos desenhos, clique neles para aumentar o tamanho. Ao final da exposição dos desenhos, tem uma não tão pequena carta desse autor que vos fala, quem quiser ler, fique à vontade.

Há braços...









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Carta a você, que por ventura está lendo esse blog neste momento

Caros leitores,

gosto de desenhar e esse talvez seja o prazer quase que irracional que mais me acalenta o espírito, nunca vi isso necessariamente como um trabalho, uma obrigação. Neste ano que já está quase se findando, optei por iniciar uma nova graduação, agora em Filosofia aqui na Ufscar, em São Carlos, e com essa decisão, a mudança de cidade e todas as mudanças que advém desta, trouxe também a ideia de tentar viver apenas daquilo que minha arte pudesse me trazer. Assim, comecei a tentativa de ser apenas um vendedor de zines nos bares da cidade e realizar alguns trabalhos por encomenda, quando estes me traziam alguma satisfação em fazê-los. Planos postos, a vida se seguiu a partir disso, mas cabe dizer aqui que nem tudo dá certo sempre.

Não é fácil levantar todos os dias com o ânimo suficiente para sair na rua e lidar com pessoas estranhas na tentativa de conseguir dinheiro, às vezes isso dá certo e você volta para casa reanimado e feliz, com um dinheiro suficiente para passar alguns dias e talvez realizar alguns desejos, como comer algo diferente, às vezes nada dá certo, e você apenas volta pra casa, em silêncio e com um rancor a respeito do mundo indizível. Os dias se sucedem assim, as vezes você não se presta a tentar “trabalhar”, com inúmeras questões na mente, decide por esperar o porvir próximo para restabelecer a vontade. Mas geralmente você se anima, pois a vida é feita disso mesmo, altos e baixos, tropeços necessários nas pedras no meio do caminho. É que viver de vender seu próprio trabalho tem um peso de se tornar personagem de si mesmo, você tem que sorrir, tem que ser educado, e geralmente quando a situação está ruim, essas são as coisas que você menos tem vontade de fazer.
Pois bem, dito isso, recorro à você querido leitor na expectativa primeira de apenas colocar em palavras aquilo que vem me ocorrendo nessa vida, nesse ano, na mudança.

Mas há também um motivo ulterior: estou falido, honestamente falido. Oras, eu como um fã absoluto de Henry Miller, e simpatizante completo do ato da mendicância, recorro a vocês para lhes fazer uma pergunta - “Alguém ai, do outro lado da tela, tem algum tostão para me dar?” - por mais que isso pareça uma brincadeira, não o é. Tenho absoluta certeza que o dinheiro não é nada, mas que infelizmente proporciona aquilo que chamamos de vida em sociedade, sonho com um mundo ideal onde não haveria dinheiro e nem trabalho “forçado”, pois pra mim, trabalhar apenas para ganhar dinheiro para sobreviver, seja lá em que condição, é um trabalho forçado. É o que eu penso, e não quero entrar em minucias teóricas a respeito disso… não agora. Acontece que em minha última noite de insônia, e acreditem, elas se repetem sempre em minha vida, tive um lampejo de escrever isso que lhes escrevo, o tentar pelo tentar.

Não quero com isso que vocês, principalmente aqueles e aquelas com os quais tenho uma amizade profunda e tudo o mais, se preocupem sem necessidade, estou bem, na verdade nunca estive melhor, e minha mente conflui em vários exercícios de imaginação, estudo e tranquilidade, os desenhos postados aqui são reflexo direto disso, nunca estive tão tranquilo e satisfeito com minha produção artística e intelectual, mesmo está não se convertendo em dinheiro necessário à sobrevivência. Estou saudável e tenho me alimentado dentro das conformidades, moro com pessoas que amo e que me apoiam sempre, e isso já basta à paz de espírito.

Queria,antes de findar essa já longa carta, escrever uma citação do Bergson, filósofo ao qual venho detido parte de meus estudos neste semestre.

“O que faz da esperança um prazer tão intenso é que o futuro, que está à nossa disposição, nos surge ao mesmo tempo sob uma imensidão de formas, igualmente risonhas, igualmente possíveis. Ainda que a mais desejada se realize, é preciso sacrificar as outras, e teremos perdido muito. A ideia do futuro, prenhe de uma infinidade de possíveis, é pois mais fecunda do que o próprio futuro, e é por isso que há mais encanto na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade.” (Henri Bergson – Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, cap. 1)

Empenhemos então a transformar a realidade em sonho. Há esperança.

Atenciosamente, e com carinho,

Batata Sem Umbigo

22 de outubro de 2016

Descarrego de desenhos do caderninho...

Salve moçada...

mais um caderninho se vai cheio de anotações e rabiscos deste cartunista que vos escreve. Antes que ele acabe (pois ainda faltam umas 10 páginas em branco), resolvi postar alguns dos desenhos feitos nele, algumas imagens vão sem tratamento e outras com, de acordo com o meu gosto.

se vocês ainda não adquiriram os zines novos que estou preparando, ainda dá tempo, pois não consegui finalizá-los, mas está quase...

CLIQUE AQUI, você que está perdidx e não está sabendo do que eu estou falando....

Vamos aos desenhos... (clique na imagem para aumentá-la)












29 de setembro de 2016

Campanha de Zines para ajudar um cartunista em crise...

"Ao longo das últimas semanas tenho sido um bom cidadão. Venho trampando pra caralho afim de tentar pagar as contas em dia, e mesmo sem êxito, tenho pago elas atrasado. Escrevi todos os trabalhos da faculdade, assim, Descartes, Rousseau e Aristóteles passaram pela minha mente. Escrevi um projeto para o Proac com o objetivo de sanar meus problemas financeiros futuros. Venho vendendo zines sempre que possível, ando pelas ruas, adentro os bares sempre pedindo permissão aos seus proprietários. As vezes logro sucesso, as vezes não. E por conta de uma coisa ou de outra, bebo umas doses de cachaça para continuar em frente. E ainda assim, no fundo de meu peito, tem um não sei o que que me incomoda. E sigo persistindo em sabê-lo."


 Queridxs amigxs.
aos moldes do cartunista João da Silva, resolvi também fazer uma campanha de crowndfunding solidária, pois as contas para pagar se acumulam e viver de arte é osso mesmo. 

Para isso, estou esquentando no forno dois zines novinhos em folha para essa campanha nanoempreendedora. Finalmente, o Zine Batata Sem Umbigo #19, com 16 páginas e formato minizine, só com material inédito desenhado a mão direto no boneco do zine. Serão HQS, textos e ilustrações advindas diretamente dessa cabeça vivente em terras São Carlenses.

O outro zine ainda sem nome, será apenas de escritos pseudo-poéticos desse que vos escreve, contará também com um texto do Arthur Prado ilustrado por mim. (para conferir o trampo do Arthur, clique AQUI).

Os dois zines novos sairão por R$ 6,00 apenas mais envio por correio (no máximo 3 reais, fora aqueles que posso entregar pessoalmente). 

Devo finalizar a produção ao longo da próxima semana, assim, as encomendas já deverão ser postadas lá pelos meados de outubro, acabando com a ânsia de qualquer um ávido por novos zines.

Como a ideia é levantar fundos para pagar contas, temos tambem os diversos zines que lancei nos últimos tempos que muitos de vocês podem não ter.

São eles:

Zine Anotações (aqui): R$ 2,00.

Era pra ser só de poesia... (aqui): R$ 3,00.

Zine Destaque-me (22 ilustrações destacáveis, para colar nos lugares ou dar de presente): R$ 5,00.

Coleção Histórica Batata Sem Umbigo Vol 01 (aqui): R$ 5,00.

Zine Chafurdando na Merda (aqui): R$ 2,00

Livro Refluxo (um livro mesmo, de HQ, com 120 páginas): R$ 20,00.

e claro, toda a coleção restante dos zines Batata Sem umbigo, que podem ser vistos neste link, por apenas R$ 2,00 cada (menos o #15, que custa R$ 4,00)

O importante é ajudar moçada... poderão ser feitos depósito na minha conta, que é Bradesco, ou na conta de uma amiga que é Banco do Brasil... ou seja, não tem desculpa...

Escrevam para batatasemumbigo@gmail.com e façam suas encomendas, lembrando, que quem fizer depósitos acima de R$40,00 solidários, ganham uma foto 3X4 deste que lhes escreve, autográfada!!!! Maravilha!!!

Ajudem a divulgar essa campanha, e vamos que vamos!!!

Batata Sem Umbigo


24 de junho de 2016

Resultado das Oficinas de Zines na Ufscar

No último mês tive o prazer de ministrar duas Oficinas de Zines em atividades de greve dos estudantes de Filosofia da Ufscar. Abaixo, segue-se o resultado dessas oficinas:


A primeira oficina, realizada no dia 1° de junho, teve tema livre.


O zine Sangue no Zóio pode ser visualizado clicando AQUI.


A segunda oficina, realizada no dia 21 de junho, teve como tema "O que é a greve para você?"


O Zine da Greve pode ser visualizado clicando AQUI.

Boa Leitura!!!




Despacho de ilustrações...

Finalizei mais um caderninho de desenhos que me acompanhou nos últimos tempos, seguem abaixo alguns deles... (clique na imagem para aumentá-la)







15 de junho de 2016

Zine NOVO: "... era pra ser apenas de poesia"

Esse zine como diz em seu título muito direto, é sim um zine apenas de poesias. Essas poesias são um compilado do que de melhor o autor escreveu entre os anos de 2004 à 2008, segundo ele mesmo. Imprimam e distribuam à vontade.

Para visualizar o zine completo entre AQUI.

12 de maio de 2016

Trampos últimos...

Segue abaixo alguns trampos que fiz nos últimos dias...

O primeiro, dois desenhos para uma campanha de conscientização a respeito da hipertensão e diabetes para o UBS de Caicó-RN, as ideias para as ilustrações são de estudantes e professores do curso de Medicina da Universidade Federal de lá (clique para aumentar a imagem):


O segundo, trampo para cartaz de atividade da Fábrica Ocupada Flaskô, comemorando 13 anos de lutas (fiz seis versões para o cartaz, modificando as cores):







O terceiro, esboços sem compromisso: